O QUE É INFÂNCIA?

Segundo o Dicionário Michaelis, infância é o “período da vida, no ser humano, que vai desde o nascimento até o início da adolescência”. No mesmo sentido, o Dicionário Priberam conceitua como “período de vida humana desde o nascimento até à puberdade”. Os dois dicionários ainda classificam a infância, pela psicologia, em três etapas:

  • Primeira infância: Do nascimento até cerca dos três anos.
  • Segunda infância: Aproximadamente desde os três anos até aos sete.
  • Terceira infância: Aproximadamente desde os sete anos até ao início da adolescência.

Além desse período, que é bem definido para nossa sociedade hoje, quando pensamos em infância, também nos vêm à mente crianças fofas, brinquedos, ingenuidade, pureza e mais algumas palavras suaves. Porém, existe um lado obscuro sobre essa etapa da vida que nem todos percebem e que vêm sendo traçado há longos anos numa perpetuação da negação da infância mesmo nos dias de hoje.

Conceito histórico da infância

Até o século XII, o valor de uma criança era nulo (ARIÈS, 1981) e a taxa de mortalidade muito alta. Os pais dela que escolhiam o que fazer com a mesma, a depender dos seus interesses, mas tratando-a como um adulto. Ainda por volta dos sete anos, a criança já começava a trabalhar e dar conta de responsabilidades. A própria arte da época retratava-as como mini-adultos, como se, de fato, a infância não existisse, somente a idade adulta.

O infanticídio de recém-nascidos também era comum. Se os pais não estivessem satisfeitos com o bebê, podiam matá-lo, amparados pela legalidade. Era comum desfazer-se de bebês do sexo feminino ou com alguma deficiência/deformidade, por questões culturais. Por isso, também nas representações de arte, a pintura sempre mostrava a “criança-mini-adulto” junto a figuras fúnebres.

Por conta dessa instabilidade e desconsideração da vida da criança, não existiam relações de afeto para com elas. Bem como, os pequenos não estudavam e eram vistos como ferramenta de cuidado dos pais quando mais velhos, em continuidade a visão utilitarista dos primórdios.

A partir do Renascimento (século XV), começa uma ideia da existência da infância, identificando a criança em separação do adulto, mas ainda como ser não pensante. A Igreja Católica também influenciou nesse processo, quando determinou o batismo obrigatório de todas as crianças, mesmo as mortas. Isso incentivou uma preocupação com a alta taxa de mortalidade desses indivíduos.

Com a maior observância no cuidado para a criança não morrer, iniciou-se um processo de responsabilizar-se mais por essa criança em termos de saúde e condições sanitárias. Também foram notadas a fragilidade e a dependência desses seres humanos, oferecendo a atenção necessária para que elas sobrevivessem. Essa fase Frabonni chamou de infância industrializada.

Todo esse conceito sobre a infância foi evoluindo até que a criança fosse considerada como alguém que pensa e sente, como um ser humano em formação e aprendizado, que precisa de tratamento diferenciado. Hoje, a criança ocupa um lugar na sociedade e possui leis específicas, por conta de uma construção social desenvolvida em prol dela. Essa seria a infância de direitos, segundo Franco Frabboni.

Ou seja, a infância não existia até que conhecimentos científicos surgissem com mais força na sociedade. Através do estudo e reflexão, foi possível entender mais sobre os diversos fenômenos do mundo, entre eles, a condição específica de ser criança. Só assim começaram a notar a presença desse pequeno ser cheio de vida. Mas, e agora que existe infância, a criança é tratada de forma condizente ao reconhecimento da sua existência?

Infância no modelo atual

Especialistas ressaltam a importância das crianças poderem brincar, aprender e ter espaço. Elas necessitam descobrir como viver em sociedade e sobre a sua própria autonomia. E não é isso que se vê sendo disponibilizado na maior parte das famílias, sejam elas de qualquer classe social.

O que vemos são crianças sendo utilizadas em benefício dos seus pais/responsáveis. Há muitas regras e pouca liberdade para criança se desenvolver no mundo que lhe cabe. As atividades são incluídas na vida delas sem qualquer observância do retorno disso para elas mesmas, e sim em atenção à utilidade disso para a família.

Percebe-se que a infância continua a ser negada mesmo nos tempos atuais. Isso se demonstra desde a concepção do bebê até a sua criação e vivências. Ter um filho ainda não é uma decisão tomada com a seriedade que se deve ter. Muitas vezes, não se trata nem de uma opção e sim de um acontecimento fruto da falta de proteção sexual, que remete também a falta de entendimento do que é criar uma criança.

Consequentemente, muitas crianças crescem sentindo-se indesejadas, ignoradas, usadas, encurraladas, comprometendo todo o seu potencial de ser um futuro adulto saudável. O ambiente compromete até mesmo a criança que quer sair daquela vida de miséria e criminalidade.

Referências

ARIÈS, Philippe. História social da criança e da família. Rio de Janeiro: Livros Técnicos, 2014.

BEE, H.; BOYD, D. A criança em desenvolvimento. 12ª. Ed. Porto Alegre: Artmed, 2011.

PAPALIA, D.; FELDMAN, R. Desenvolvimento Humano. 12ª. Ed. Porto Alegre: AMGH, 2013.

RENNER, Estela. O começo da vida. 2016.

BRISKI, Z.; KAUFFMAN, Ross. Nascidos em bordéis. 2004.

Aulas da professora Ana Vilela Brandino na disciplina Psicologia do Desenvolvimento I no curso de graduação de Psicologia ministrado na Universidade Católica do Salvador.

Escrito por Sarita Deoli

Nordestina, advogada e graduanda em psicologia. Criou o Trago o Sol para falar sobre as relações do ser humano com si mesmo e com o mundo. Acredita no valor do autoconhecimento e do conhecimento em si. Tem mais esperança do que antigamente e insiste que não está aqui só de passagem.

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